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O que faz uma casa ser uma casa? Lisboa Invisível na Noite Europeia dos Investigadores

Autoria

Lisboa Invisível

Data

06 OUT 2026

O que faz uma casa ser uma casa? Lisboa Invisível na Noite Europeia dos Investigadores

O que faz uma casa ser uma casa?

Quando falamos de habitação, é comum começarmos pelos números: metros quadrados, rendas, contratos, tipologias, número de casas disponíveis. Tudo isto importa. Mas há coisas que não cabem tão facilmente numa tabela.

A edição de 2026 teve como tema “Unir Conhecimentos, Transformar o Futuro”, com especial atenção às questões do clima, da sustentabilidade e da inclusão. A participação do LNEG na Noite Europeia dos Investigadores foi uma oportunidade para juntar investigação, rua e conversa, três coisas que gostamos de pôr no mesmo lugar.

Um varal cheio de respostas

Levamos um varal.

Em vez de roupa, pendurámos perguntas e respostas. Quem passava podia parar, escrever e deixar ali um pedaço da sua ideia de cidade.

Os cartões tinham três cores e três perguntas: uma sobre habitar, outra sobre invisibilidade urbana e outra sobre o futuro da cidade.

A escolha do varal não foi por acaso.

Um varal é uma coisa de casa. Está associado ao quotidiano, às rotinas, às coisas que fazemos sem pensar muito nelas. É também uma coisa partilhada: a roupa de cada pessoa fica ao lado da roupa de outra, sem grandes cerimónias.

Quisemos que acontecesse o mesmo com as respostas.

Não era preciso saber falar “sobre habitação”. Não era preciso ter uma opinião técnica. Bastava ter vivido numa casa, ter procurado uma casa, ter perdido uma casa, ter passado por uma rua, ter imaginado uma cidade.

Ou simplesmente ter alguma coisa para dizer.

E foi assim que o varal se foi enchendo.

Afinal, o que é uma casa?

Entre os cartões começaram a aparecer algumas palavras vezes sem conta:

segurança.
afeto.
privacidade.
pertença.
ter para onde voltar.

Quase ninguém respondeu com metros quadrados.

Quase ninguém falou de propriedade.

As respostas foram muito mais sobre sentir-se seguro, poder fechar a porta, ter um lugar onde descansar, guardar as nossas coisas, receber alguém, voltar no fim do dia e sentir que aquele espaço também é nosso.

Isto parece simples.

Mas talvez seja precisamente aí que esteja a questão.

Quando falamos de habitação através de números e categorias, podemos facilmente esquecer aquilo que as pessoas estão realmente a tentar proteger quando dizem que precisam de uma casa.

Não é apenas um teto.

É a possibilidade de ter uma vida com alguma continuidade.

Quando perder a casa é perder muito mais

É aqui que a conversa sobre habitação se cruza com a conversa sobre direito à cidade.

A urbanista Raquel Rolnik, que foi Relatora Especial da ONU para o Direito à Moradia Adequada, tem insistido numa ideia importante: morar não é apenas ter quatro paredes e um teto. A moradia é também uma porta de entrada para outros direitos e para tudo aquilo que uma cidade pode oferecer.

Numa entrevista ao Outras Palavras, Rolnik fala precisamente da habitação como uma porta de entrada para outros direitos. E, noutra entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos, resume a questão de uma forma que nos parece especialmente próxima do que ouvimos no varal: o problema não é apenas o défice de moradias, mas também o défice de cidade.

Porque quando uma pessoa perde a possibilidade de viver num lugar, não perde apenas uma morada.

Pode perder a proximidade do trabalho.

A escola dos filhos.

Os vizinhos.

Os cuidados.

Os sítios onde compra comida.

A possibilidade de andar pela cidade sem estar sempre a fazer contas.

Pode perder privacidade, descanso, segurança e até a sensação de que tem direito a estar ali.

É aí que a habitação passa a ser uma questão de cidade.

E é também aí que o nosso trabalho sobre a invisibilidade urbana ganha sentido: tornar visíveis pessoas, histórias e experiências que muitas vezes ficam fora da forma como a cidade é contada.

O que um varal consegue mostrar

Há qualquer coisa de bonito, e também de desconfortável, em ver respostas diferentes penduradas umas ao lado das outras.

Uma pessoa escreve sobre segurança. Outra sobre liberdade. Outra sobre família. Outra sobre solidão.

São respostas diferentes, mas começam a desenhar uma ideia comum:

uma casa não é só um lugar onde cabemos. É um lugar onde podemos existir.

Talvez seja por isso que uma política de habitação nunca possa ser apenas uma política de construção de casas.

Precisamos de casas, claro.

Mas também precisamos de bairros onde seja possível ficar. De transportes. De serviços. De espaços públicos. De vizinhança. De tempo. De possibilidade de escolha.

E agora?

O varal não resolveu a pergunta.

Ainda bem.

Porque talvez a função de uma boa pergunta não seja fechar uma resposta, mas abrir espaço para outras.

Terminámos a noite com outra pergunta:

Que cidade queremos deixar no presente futuro?

As respostas que ficaram penduradas são uma parte dessa conversa.

Agora queremos levá-las connosco, para os nossos workshops, para a investigação, para os espaços onde se tomam decisões e, sobretudo, para continuar a conversar com quem vive a cidade todos os dias.

Porque se queremos transformar o futuro, talvez seja importante começar por escutar aquilo que as pessoas já estão a dizer sobre o presente.

Uma casa só é uma casa quando podemos, de facto, viver nela.

Para continuar a conversa

Ver: Push (2019), de Fredrik Gertten, acompanha Leilani Farha, então Relatora Especial da ONU para o Direito à Moradia Adequada, numa viagem por cidades onde a habitação se tornou cada vez mais inacessível e pergunta quem pode, afinal, continuar a viver nelas.
Ver a crítica do BFI ao filme · Ver Push

Ler: Para continuar a pensar sobre habitação para lá das quatro paredes, vale a pena ler “Nosso grande problema não é o déficit de moradia, mas sim o déficit de cidade”, de Raquel Rolnik, e a entrevista sobre a emergência habitacional e a moradia como porta de entrada para outros direitos.

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