No dia 6 de julho, o Lisboa Invisível organizou o primeiro seminário do projeto. Tivemos a oportunidade de partilhar alguns resultados e análises preliminares. O encontro foi também de escuta entre projetos, entre países, entre formas diferentes de fazer a mesma pergunta:
Como se produz conhecimento sobre pessoas em situação de sem-abrigo sem repetir, no próprio ato de investigar, a exclusão que se pretende compreender?
Foi este o fio que atravessou a manhã e que nos levou de Lisboa ao Brasil, através das vozes de Lidiane Maciel (NEPACS-UNIVAP) e Luciano Márcio Freitas de Oliveira (IPEA).

Partilhar achados a meio-percurso
Abrimos o seminário a meio do caminho do Lisboa Invisível. Não trazíamos conclusões fechadas, trazíamos um trabalho em curso.
Apresentámos o conceito que tem organizado a nossa investigação, a exclusão habitacional epistémica, a ideia de que as pessoas mais atingidas pela crise habitacional são, também, as menos visíveis nos sistemas que deveriam contá-las. Sem morada, não há médico de família; sem morada, não há subsídio; sem morada, muitas vezes não há sequer registo.
Partilhámos também os primeiros padrões que emergem do trabalho de terreno. A invisibilidade burocrática, a fadiga institucional de circular entre serviços que não comunicam entre si, e as geografias desiguais da exclusão que os próprios participantes nos ajudaram a mapear.
E insistimos na hipótese de que a exclusão não opera apenas pela invisibilização. Opera, em simultâneo, pela estigmatização e pela hipervisibilidade de categorias negativas que substituem a pessoa pelo problema.
Partilhar estes achados, ainda incompletos, foi também um convite a pensar em conjunto, e é exatamente aí que a presença dos colegas brasileiros se tornou decisiva.
Das Dores: uma lição sobre como construir com, e não sobre
Lidiane Maciel (UNIVAP) é socióloga, professora universitária e escritora. Durante o encontro, trouxe-nos o livro Das Dores. E com ele uma lição metodológica que ultrapassa fronteiras. O que ficou mais marcante na sua apresentação foi o modo como o mapeamento de territórios, circuitos e dinâmicas urbanas de invisibilidade foi construído coletivamente.

Lidiane falou-nos de processos de construção cuidadosos, de situações delicadas que exigem uma edição atenta, e de uma reflexividade coletiva que não separa o método do compromisso ético. É uma experiência que dialoga diretamente com o que também procuramos fazer nos nossos workshops de cocriação: devolver às pessoas a autoria sobre os territórios que habitam, e sobre as narrativas que contam sobre si.
O debate brasileiro sobre o censo: uma leitura crítica que nos interessa a todos
Luciano Freitas de Oliveira, doutor em política social, trouxe uma dimensão que atravessa qualquer projeto desta natureza, em qualquer país. Falou sobre os limites e as disputas da produção de dados oficiais e apresentou-nos o debate atual, no Brasil, em torno do censo nacional da população em situação de rua conduzido pelo IBGE. Luciano também fez uma leitura crítica sobre o que significa, na prática, contar esta população.
Quem decide as categorias, quem é elegível para ser contado e o que fica de fora dessa contagem são decisões políticas antes de serem decisões técnicas.

Este é um dos pontos de convergência entre os dois lados do Atlântico. Em Portugal e no Brasil, os sistemas oficiais de dados enfrentam os mesmos limites estruturais quando confrontados com populações que não cabem nas suas categorias fixas.
Luciano propôs uma comparação entre os cenários português e brasileiro e deixou um convite explícito a pensarmos em conjunto novos projetos de colaboração.
O que este diálogo nos ensina
Há uma sobreposição notável entre os desafios que enfrentamos em Portugal e os que os nossos colegas brasileiros descreveram: subcontagem, fragmentação institucional dos dados e a necessidade urgente de metodologias verdadeiramente participativas. Esta convergência indica uma mesma estrutura de invisibilização que atravessa contextos nacionais distintos, ainda que com histórias e instituições diferentes.
E é por isso que este seminário nos mostrou que estamos em um caminho de investigação social colaborativa que precisa de ser aprofundado entre Lisboa e as cidades brasileiras, entre a antropologia e a produção de políticas públicas, entre quem investiga e quem vive, no quotidiano, a exclusão que estudamos.
Se há algo que continuamos a aprender, seminário após seminário, workshop após workshop, é:
os dados que produzimos sobre pessoas em situação de sem-abrigo só têm valor real se forem produzidos com elas. Incluir as suas narrativas é a única forma de aceder a dimensões do cuidado, das trajetórias e da experiência vivida que nenhuma estatística oficial, sozinha, consegue captar.
Continuar a construir esta ponte
Terminámos o seminário com a certeza de que este diálogo entre Portugal e o Brasil precisa de continuidade. As perguntas que nos unem não se resolvem num único encontro, nem dentro de um único país.
Ao CRIA, ISCTE, FCT e Rede Tecnolopolíticas que tornaram possível este seminário.
À Lidiane Maciel e ao Luciano Márcio Freitas de Oliveira, pelo generoso partilhamento dos seus percursos de investigação, o nosso agradecimento.
Seguiremos com o compromisso de continuar a valorizar o conhecimento das pessoas que vivem a exclusão habitacional, e de construir, com elas e com outros investigadores, caminhos de investigação social mais justos e mais colaborativos.
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Confira o audiobook do livro Das Dores:
