Uma semana em Braga com jovens profissionais europeus a repensar o combate ao fenómeno sem-abrigo
Olá! Me chamo Júlia Mello e sou assistente de investigação no Lisboa Invisível. Venho pedir uns minutinhos da sua atenção para dividir com você um pouco da minha experiência representando o nosso projeto na formação “Empowering young professionals to end homelessness in Europe”, promovida pela FEANTSA entre os dias 22 e 26 de junho em Braga (Portugal). Voltei de lá com mais perguntas do que respostas.
Há momentos na vida que nos atravessam enquanto profissionais e pessoas. Acredito que quando falamos de luta e transformação social, não podemos negar o impacto e a potência que um objetivo em comum pode ter.
Cooperação, debates, partilhas
A formação que participei foi desenhada com o intuito de fortalecer o debate sobre a importância de capacitar e empoderar aqueles que representam o futuro da atuação na área de combate ao fenômeno de sem-abrigo e validar os conhecimentos, as ideias e a energia que trazem para a transformação de práticas, o fortalecimento de redes de cooperação e a construção de políticas públicas mais alinhadas com os Direitos Humanos e as necessidades das pessoas em situação de vulnerabilidade social.
Ao longo da semana, eu e 24 colegas de diferentes países tivemos a oportunidade de partilhar as nossas realidades locais, experiências de intervenção, ferramentas, boas práticas e reflexões sobre os desafios que nós, jovens profissionais nesse setor, enfrentamos diariamente, assim como o papel que desempenhamos no combate eficaz a situações de vulnerabilidade social e exclusão habitacional.
Convívio, criar relações
As dinâmicas de quebra-gelo e de team building ajudaram a criar um ambiente seguro e acolhedor das diferenças. Isso foi essencial para que verdadeiras trocas e uma construção coletiva pudessem acontecer naturalmente. Foi assim com o “bingo de pessoas”, com a noite internacional em que dividimos comidas e bebidas típicas dos nossos países de origem, e com a construção de um contrato de grupo. Deixo aqui uma salva de palmas à Sérgio, Leonie, Karo e Andrea pelo excelente trabalho a conduzir essa orquestra de forma tão sensível e cuidadosa.
Confesso que me surpreendi ao perceber logo no primeiro dia que muitos dos meus colegas dividiam os mesmos receios: não conseguir ou não ter com o que contribuir, cometer erros, ter dificuldade em comunicar numa outra língua.
Quem nunca sentiu síndrome do impostor, não é mesmo?.
Em contrapartida, senti uma ansiedade gostosa de viver essa experiência ao entender que as possibilidades de aprendizagem, as expectativas que tínhamos e as contribuições que trazíamos eram muito maiores.
Foi com essa mistura de nervosismo e vontade que, nos dias que se seguiram, pudemos explorar mais a fundo as diferentes formas de intervenção existentes em vários contextos europeus, a partir de uma perspectiva baseada nos Direitos Humanos. Além disso, também refletimos sobre quem são os jovens profissionais que trabalham no setor de combate à situação de sem-abrigo, as suas motivações, preocupações, desafios e aspirações a partir das nossas próprias vivências.
Fomos desafiados a pensar criticamente sobre alguns dos principais obstáculos que enfrentamos através de uma atividade de Brainstorming reverso.
A partir da provocação “O que poderia tornar essa situação ainda pior?”, identificamos padrões negativos, barreiras e lacunas existentes nos sistemas de suporte, antes de os transformar em estratégias práticas de intervenção e prevenção capazes de contribuir positivamente para as nossas comunidades e serviços. Realizamos também um exercício de roleplay de um caso real de denúncia coletiva que foi apresentada pela FEANTSA e pela Federação Internacional dos Direitos Humanos (FIDH) contra a França, em 2023.
Aprendemos, através dessas atividades, como os Direitos Humanos vão muito além de princípios orientadores da intervenção social quando utilizados para promover a responsabilização por más condutas e violações de direitos, até mesmo por parte dos Estados.

Terminei esse dia, assim como outros colegas, com uma renovada convicção no poder da ação coletiva, na capacidade que as pessoas e organizações têm, quando trabalham em rede e amplificam as vozes das pessoas afetadas, para questionar estruturas injustas que perpetuam situações de vulnerabilidade e influenciar mudanças sistêmicas no acesso ao suporte e direitos.
Através de entrevistas rotativas entre os participantes, abordamos temas como o autocuidado e bem-estar, os desafios enfrentados no início da carreira, a importância das comunidades de prática e de uma rede de apoio e as competências necessárias para trabalhar nesta área. Apesar de termos reconhecido a existência de obstáculos como a escassez de recursos, a pressão emocional, o risco de burnout, dentre outros, acredito que emergiu dessa partilha uma visão coletiva muito inspiradora: a de que somos agentes de mudança resilientes, empáticos, criativos, apaixonados e profundamente comprometidos com a transformação social.

Esse foi um momento muito importante de validação coletiva do papel fundamental que desempenhamos na construção de respostas mais inovadoras, humanas e eficazes para enfrentar o fenômeno de sem-abrigo. Sobretudo, reforçou o sentimento de pertença e comunidade, numa área que frequentemente nos faz sentir isolados na luta por ser marcada pela ausência de espaços onde nossas vozes são ouvidas, respeitadas e apoiadas.
Espírito de partilha
Tive, ainda, a oportunidade de apresentar o projeto Lisboa Invisível na “Feira de Boas e Más Práticas”, tendo sido recebida com muita curiosidade e interesse pelos demais participantes. As conversas e trocas que surgiram me permitiram aprofundar a reflexão sobre a dimensão política dos dados, a influência que exercem na sustentação de narrativas estereotipadas e o desenho de políticas públicas que definem respostas sociais. Reforcei também a potência transformadora que existe na valorização das diferentes fontes de saber e na integração de pessoas com experiência vivida nos processos de produção de conhecimento, planejamento e tomadas de decisão. Essa troca abriu portas para possíveis articulações e colaborações futuras, fortalecendo a presença do Lisboa Invisível em redes formais e informais do setor.

Foram dias muito intensos de aprendizagem, partilha e reflexão. Voltei para Lisboa com a sensação de ter ficado com mais perguntas do que respostas, mas com certeza de que o treinamento cumpriu o seu papel de empoderar os jovens profissionais que ali estavam.
Não sei se conseguimos compreender de fato as repercussões que um encontro como esse terá na vida, no trabalho e na comunidade de cada um que se propôs a dividir o seu propósito e participar na construção coletiva de uma sociedade melhor. O que sei é que saí de Braga reenergizada pela partilha de colegas tão incríveis, convicta da responsabilidade comunitária que temos e, sobretudo, esperançosa do que podemos produzir.
A mudança não acontece de forma isolada, mas nasce dos encontros, das relações, das perguntas que fazemos em conjunto, da coragem de imaginar alternativas e da possibilidade de as colocarmos em prática.
Se com esse texto eu conseguir dividir com você, curioso leitor, o sonho e a realidade possível que essa semana significou para mim, que seja o entendimento de que somos, ao mesmo tempo, a pedra, o rio, a mão que lança a pedra e as ondas que se propagam e modificam muito para além do ponto onde tudo começou.
Fica aqui o meu (nosso) agradecimento à FEANTSA e a toda a equipa que tornou esta formação possível, e a cada um dos 24 colegas que dividiram comigo esta semana em Braga. Perguntas, dúvidas partilhadas e a coragem de imaginar, em conjunto, outras formas de fazer este trabalho.
Deixo também o convite para você que chegou até aqui de acompanhar o Lisboa Invisível e ficar a saber mais sobre o nosso trabalho e as próximas oportunidades de nos cruzarmos por aí!
Próximos passos
Vamos estar na Conferência da FEANTSA em Lisboa
Nos dias 24 e 25 de setembro, a FEANTSA traz a Lisboa a sua conferência de investigação europeia sobre o fenómeno de sem-abrigo, em parceria com a Universidade Católica Portuguesa. E o Lisboa Invisível vai estar lá! vamos apresentar o nosso trabalho e partilhar o que temos vindo a construir enquanto observatório social digital sobre a situação de sem-abrigo em Lisboa.
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O que é a FEANTSA?
A FEANTSA (Federação Europeia de Organizações Nacionais que Trabalham com Pessoas em Situação de Sem-Abrigo) é a única grande rede europeia dedicada exclusivamente ao fenómeno de sem-abrigo, trabalhando em estreita colaboração com instituições da União Europeia e com estatuto consultivo junto do Conselho da Europa e das Nações Unidas. Reúne cerca de 100 organizações de 30 países europeus, produzindo investigação, políticas públicas e ações de capacitação como a formação em que a Júlia participou.
