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A pedra, o rio e a mão que a lança

Autoria

Júlia Mello

Data

03 JUL 2026

A pedra, o rio e a mão que a lança

Uma semana em Braga com jovens profissionais europeus a repensar o combate ao fenómeno sem-abrigo

Olá! Me chamo Júlia Mello e sou assistente de investigação no Lisboa Invisível. Venho pedir uns minutinhos da sua atenção para dividir com você um pouco da minha experiência representando o nosso projeto na formação “Empowering young professionals to end homelessness in Europe”, promovida pela FEANTSA entre os dias 22 e 26 de junho em Braga (Portugal). Voltei de lá com mais perguntas do que respostas.

Há momentos na vida que nos atravessam enquanto profissionais e pessoas. Acredito que quando falamos de luta e transformação social, não podemos negar o impacto e a potência que um objetivo em comum pode ter. 

Cooperação, debates, partilhas

A formação que participei foi desenhada com o intuito de fortalecer o debate sobre a importância de capacitar e empoderar aqueles que representam o futuro da atuação na área de combate ao fenômeno de sem-abrigo e validar os conhecimentos, as ideias e a energia que trazem para a transformação de práticas, o fortalecimento de redes de cooperação e a construção de políticas públicas mais alinhadas com os Direitos Humanos e as necessidades das pessoas em situação de vulnerabilidade social.

Ao longo da semana, eu e 24 colegas de diferentes países tivemos a oportunidade de partilhar as nossas realidades locais, experiências de intervenção, ferramentas, boas práticas e reflexões sobre os desafios que nós, jovens profissionais nesse setor, enfrentamos diariamente, assim como o papel que desempenhamos no combate eficaz a situações de vulnerabilidade social e exclusão habitacional.  

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Convívio, criar relações

As dinâmicas de quebra-gelo e de team building ajudaram a criar um ambiente seguro e acolhedor das diferenças. Isso foi essencial para que verdadeiras trocas e uma construção coletiva pudessem acontecer naturalmente. Foi assim com o “bingo de pessoas”, com a noite internacional em que dividimos comidas e bebidas típicas dos nossos países de origem, e com a construção de um contrato de grupo. Deixo aqui uma salva de palmas à Sérgio, Leonie, Karo e Andrea pelo excelente trabalho a conduzir essa orquestra de forma tão sensível e cuidadosa.

Confesso que me surpreendi ao perceber logo no primeiro dia que muitos dos meus colegas dividiam os mesmos receios: não conseguir ou não ter com o que contribuir, cometer erros, ter dificuldade em comunicar numa outra língua.

Quem nunca sentiu síndrome do impostor, não é mesmo?.

Em contrapartida, senti uma ansiedade gostosa de viver essa experiência ao entender que as possibilidades de aprendizagem, as expectativas que tínhamos e as contribuições que trazíamos eram muito maiores. 

Foi com essa mistura de nervosismo e vontade que, nos dias que se seguiram, pudemos explorar mais a fundo as diferentes formas de intervenção existentes em vários contextos europeus, a partir de uma perspectiva baseada nos Direitos Humanos. Além disso, também refletimos sobre quem são os jovens profissionais que trabalham no setor de combate à situação de sem-abrigo, as suas motivações, preocupações, desafios e aspirações a partir das nossas próprias vivências. 

Fomos desafiados a pensar criticamente sobre alguns dos principais obstáculos que enfrentamos através de uma atividade de Brainstorming reverso.

A partir da provocação “O que poderia tornar essa situação ainda pior?”, identificamos padrões negativos, barreiras e lacunas existentes nos sistemas de suporte, antes de os transformar em estratégias práticas de intervenção e prevenção capazes de contribuir positivamente para as nossas comunidades e serviços. Realizamos também um exercício de roleplay de um caso real de denúncia coletiva que foi apresentada pela FEANTSA e pela Federação Internacional dos Direitos Humanos (FIDH) contra a França, em 2023.

brainstorming reverso      

Aprendemos, através dessas atividades, como os Direitos Humanos vão muito além de princípios orientadores da intervenção social quando utilizados para promover a responsabilização por más condutas e violações de direitos, até mesmo por parte dos Estados. 

roleplay

Terminei esse dia, assim como outros colegas, com uma renovada convicção no poder da ação coletiva, na capacidade que as pessoas e organizações têm, quando trabalham em rede e amplificam as vozes das pessoas afetadas, para questionar estruturas injustas que perpetuam situações de vulnerabilidade e influenciar mudanças sistêmicas no acesso ao suporte e direitos.  

Através de entrevistas rotativas entre os participantes, abordamos temas como o autocuidado e bem-estar, os desafios enfrentados no início da carreira, a importância das comunidades de prática e de uma rede de apoio e as competências necessárias para trabalhar nesta área. Apesar de termos reconhecido a existência de obstáculos como a escassez de recursos, a pressão emocional, o risco de burnout, dentre outros, acredito que emergiu dessa partilha uma visão coletiva muito inspiradora: a de que somos agentes de mudança resilientes, empáticos, criativos, apaixonados e profundamente comprometidos com a transformação social. 

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Esse foi um momento muito importante de validação coletiva do papel fundamental que desempenhamos na construção de respostas mais inovadoras, humanas e eficazes para enfrentar o fenômeno de sem-abrigo. Sobretudo, reforçou o sentimento de pertença e comunidade, numa área que  frequentemente nos faz sentir isolados na luta por ser marcada pela ausência de espaços onde nossas vozes são ouvidas, respeitadas e apoiadas.

Espírito de partilha

Tive, ainda, a oportunidade de apresentar o projeto Lisboa Invisível na “Feira de Boas e Más Práticas”, tendo sido recebida com muita curiosidade e interesse pelos demais participantes. As conversas e trocas que surgiram me permitiram aprofundar a reflexão sobre a dimensão política dos dados, a influência que exercem na sustentação de narrativas estereotipadas e o desenho de políticas públicas que definem respostas sociais. Reforcei também a potência transformadora que existe na valorização das diferentes fontes de saber e na integração de pessoas com experiência vivida nos processos de produção de conhecimento, planejamento e tomadas de decisão. Essa troca abriu portas para possíveis articulações e colaborações futuras, fortalecendo a presença do Lisboa Invisível em redes formais e informais do setor. 

boas e más práticas grupo de discussão

Foram dias muito intensos de aprendizagem, partilha e reflexão. Voltei para Lisboa com a sensação de ter ficado com mais perguntas do que respostas, mas com certeza de que o treinamento cumpriu o seu papel de empoderar os jovens profissionais que ali estavam. 

Não sei se conseguimos compreender de fato as repercussões que um encontro como esse terá na vida, no trabalho e na comunidade de cada um que se propôs a dividir o seu propósito e participar na construção coletiva de uma sociedade melhor. O que sei é que saí de Braga reenergizada pela partilha de colegas tão incríveis, convicta da responsabilidade comunitária que temos e, sobretudo, esperançosa do que podemos produzir.

A mudança não acontece de forma isolada, mas nasce dos encontros, das relações, das perguntas que fazemos em conjunto, da coragem de imaginar alternativas e da possibilidade de as colocarmos em prática.

Se com esse texto eu conseguir dividir com você, curioso leitor, o sonho e a realidade possível que essa semana significou para mim, que seja o entendimento de que somos, ao mesmo tempo, a pedra, o rio, a mão que lança a pedra e as ondas que se propagam e modificam muito para além do ponto onde tudo começou.

Fica aqui o meu (nosso) agradecimento à FEANTSA e a toda a equipa que tornou esta formação possível, e a cada um dos 24 colegas que dividiram comigo esta semana em Braga. Perguntas, dúvidas partilhadas e a coragem de imaginar, em conjunto, outras formas de fazer este trabalho.

Deixo também o convite para você que chegou até aqui de acompanhar o Lisboa Invisível e ficar a saber mais sobre o nosso trabalho e as próximas oportunidades de nos cruzarmos por aí!

Próximos passos

Vamos estar na Conferência da FEANTSA em Lisboa

Nos dias 24 e 25 de setembro, a FEANTSA traz a Lisboa a sua conferência de investigação europeia sobre o fenómeno de sem-abrigo, em parceria com a Universidade Católica Portuguesa. E o Lisboa Invisível vai estar lá! vamos apresentar o nosso trabalho e partilhar o que temos vindo a construir enquanto observatório social digital sobre a situação de sem-abrigo em Lisboa.


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O que é a FEANTSA?

A FEANTSA (Federação Europeia de Organizações Nacionais que Trabalham com Pessoas em Situação de Sem-Abrigo) é a única grande rede europeia dedicada exclusivamente ao fenómeno de sem-abrigo, trabalhando em estreita colaboração com instituições da União Europeia e com estatuto consultivo junto do Conselho da Europa e das Nações Unidas. Reúne cerca de 100 organizações de 30 países europeus, produzindo investigação, políticas públicas e ações de capacitação como a formação em que a Júlia participou.

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