O currículo não protege contra a crise da habitação
Quando se fala de pessoas em situação de sem-abrigo, a imagem pública fixa-se quase sempre num único rosto: alguém que dorme na rua, sem trabalho, sem família, sem percurso. Essa imagem é estável. E enganadora.
Nos workshops de cocriação que o Lisboa Invisível tem realizado desde abril, em parceria com a Comunidade Vida e Paz, o GAT, o Coletivo MANAS e a Serve the City, encontrámos outro retrato. Mais diverso. E mais próximo do quotidiano de qualquer um de nós.
Pessoas com formação universitária. Trabalhadores ativos com horário e salário ao fim do mês. Migrantes qualificados. Mulheres que saíram de relações violentas. Pessoas que dormem num carro depois do turno. Pessoas que oscilam, durante anos, entre habitação informal, casa de conhecidos, quartos arrendados e a rua. Todas elas, sem nunca aparecerem nos registos oficiais como “sem-abrigo”.

Workshop de cocriação de dados realizado em abril de 2026, em parceria com o coletivos MANAS. Fotografia: Lisboa Invisível
A narrativa da culpa individual
A ideia de que estar em situação de sem-abrigo é resultado de uma sequência de más decisões pessoais é uma das narrativas mais persistentes no espaço público português. Vem acompanhada de três palavras: esforço, responsabilidade, organização. Como se a habitação fosse uma recompensa moral.
A investigação contradiz isto há décadas. Matthew Desmond, em Evicted (2016), mostrou como o despejo se tornou um mecanismo estrutural, uma engrenagem normalizada do mercado de arrendamento. Saskia Sassen, em Expulsions (2014), fala em expulsão: a saída involuntária de pessoas dos espaços onde sempre viveram, produzida por mecanismos económicos e jurídicos que se tornaram invisíveis no funcionamento das cidades.

Workshop de cocriação de dados realizado em abril de 2026, em parceria com o coletivos MANAS. Fotografia: Lisboa Invisível
A fronteira é mais fina do que parece
Em Lisboa, as rendas crescem mais rapidamente do que os salários. De acordo com uma reportagem do jornal Público, a renda média de um apartamento em Lisboa representa mais de 167% do salário mínimo nacional. Este é o segundo maior rácio entre as capitais da União Europeia.
Além disso, as rendas crescem mais do que as prestações sociais e do que a capacidade de resposta do Estado. Quando isto acontece, o risco de exclusão habitacional deixa de ser exceção. Passa a ser possibilidade estatística para uma fatia alargada da população.
A crise da habitação em Lisboa não é um acidente. É o resultado articulado de processos identificáveis: financeirização do mercado imobiliário, expansão do alojamento local, escassez crónica de habitação pública, especulação sobre imóveis devolutos.
A fronteira entre ter casa e não ter casa tornou-se fina. Pode ser atravessada por uma doença, um despejo, uma separação, um aumento de renda, um contrato que não se renova.

Workshop de cocriação de dados realizado em abril de 2026, em parceria com a Comunidade Vida e Paz. Fotografia: Lisboa Invisível
Outra forma de conhecer
O Lisboa Invisível não trabalha com a população em situação de sem-abrigo como objeto de estudo. Trabalha com as pessoas, na construção partilhada de conhecimento sobre aquilo que vivem. Nos workshops, quem participa valida interpretações, propõe categorias, escolhe o que quer tornar visível.
Parte-se de uma ideia simples: quem vive a exclusão habitacional sabe coisas sobre ela que nenhuma equipa consegue saber a partir de fora. Donna Haraway chamou-lhe saber situado. Luke Eric Lassiter desenvolveu o conceito de etnografia colaborativa a partir desta intuição.
Quando se reorganiza a forma como se produz conhecimento sobre o sem-abrigo, reorganiza-se também aquilo que se consegue ver.
E o que se vê é mais complexo, mais transversal e mais próximo do que a narrativa pública nos habituou a aceitar.