O Lisboa Invisível esteve presente no Encontro Anual da Rede Portuguesa da Anna Lindh Foundation, realizado em Montemor-o-Novo, nos dias 16, 17 e 18 de junho, representando o CRIA – Centro em Rede de Investigação em Antropologia.
Foram três dias de conversas, partilhas e encontros entre organizações que trabalham, em diferentes territórios e contextos, com aquilo que costuma ficar de fora dos discursos dominantes.
O que é a Fundação Anna Lindh
A Fundação Euro-Mediterrânica Anna Lindh (FAL) é uma instituição partilhada por 42 países da região euro-mediterrânica, com a missão de promover o diálogo intercultural e o conhecimento mútuo entre sociedades das margens norte e sul do Mediterrâneo. A Rede Portuguesa, formada em 2005 em simultâneo com a criação da própria Fundação, é hoje composta por cerca de 100 organizações de áreas tão diversas como a cultura, a educação, os direitos humanos, a migração e a investigação social.
Para o Lisboa Invisível, estar numa rede que pensa o diálogo intercultural como prática quotidiana, e não como conceito decorativo, fez todo o sentido.
Um espaço para pensar em conjunto
O encontro reuniu organizações da sociedade civil e outros atores envolvidos na promoção do diálogo e da cooperação, aprofundando redes de colaboração a partir da partilha de experiências e da reflexão sobre desafios comuns.
Surgiram discussões que permitiram confrontar perspetivas diferentes sobre os desafios atuais das organizações e iniciativas comunitárias. Ouvimos experiências desenvolvidas em territórios e contextos muito distintos (do Alentejo ao Porto, de Lisboa às ilhas) e percebemos que, apesar das diferenças, há perguntas que atravessam todos os campos:
- Como ampliar a participação sem reproduzir as desigualdades que dizemos querer combater?
- Como produzir conhecimento com as comunidades, e não sobre elas?
- Como fortalecer redes de colaboração entre investigação, intervenção social e sociedade civil?
As intervenções revelaram convergências, mas também formas distintas de entender a participação, abordagens diferentes à produção de conhecimento e visões plurais sobre o papel de cada organização na transformação social.

Participantes no Encontro Anual da Rede Portuguesa da Anna Lindh Foundation, realizado em Montemor-o-Novo. Fotografia: Lisboa Invisível
O que levámos do Lisboa Invisível
Enquanto observatório dedicado a tornar visíveis narrativas, percursos e experiências frequentemente ausentes dos discursos dominantes sobre a cidade, o Lisboa Invisível teve a oportunidade de partilhar a sua abordagem.
Apresentámos o trabalho desenvolvido nos últimos meses — os workshops de cocriação em parceria com a Comunidade Vida e Paz, o GAT, o Coletivo MANAS e a Serve the City Lisbon —, destacando a importância de construir conhecimento a partir das experiências vividas pelas próprias pessoas e de questionar as leituras mais imediatas sobre fenómenos urbanos e sociais.
A receção foi muito positiva. Estabelecemos conversas com participantes que enfrentam desafios semelhantes nos seus próprios contextos. Surgiram pontos de contacto em torno de três eixos:
- a produção colaborativa de conhecimento como prática ética e política;
- a valorização das narrativas marginalizadas;
- a urgência de criar formas mais inclusivas de participação.
O que aprendemos
Saímos do encontro a pensar mais uma vez nas perguntas que orientam o nosso trabalho. Em particular: como evitar que a participação se torne um termo de uso fácil, repetido em projetos e candidaturas, sem que mude verdadeiramente as relações de poder entre quem investiga, quem intervém e quem vive os fenómenos sociais que se propõe estudar?
A antropóloga Donna Haraway chamou a esta atenção responsabilidade situada: produzir conhecimento sem esquecer a partir de onde se produz, com quem se produz e em nome de quem. As discussões do encontro foram, em muitos momentos, exercícios de responsabilidade situada entre organizações que reconhecem as suas tensões internas e estão dispostas a pensá-las em conjunto.
Pistas para o futuro
Saímos com a sensação de que, perante desafios complexos, pensar e agir em conjunto continua a ser uma das ferramentas mais importantes de que dispomos. E com vontade de manter abertas as conversas iniciadas em Montemor-o-Novo.
Sobre a Rede Portuguesa da Fundação Anna Lindh
A Rede Portuguesa trabalha para melhorar a possibilidade de troca de processos de construção coletiva, com foco na interculturalidade e no diálogo, fenómenos que exigem hoje uma compreensão particular das relações sociais e das comunidades à escala global.
Site oficial da Fundação Anna Lindh
Instagram: @fundacao_anna_lindh