Será que estamos a medir o que realmente importa?
Antes mesmo de o Lisboa Invisível produzir mapas, dados ou artigos, uma pergunta já orientava o projeto. E esta semana, durante a 17.ª Conferência da International Society for Third Sector Research (ISTR), percebemos que esta pergunta está longe de ser apenas nossa.
Sob o tema Imagining the Next Generation: Strengthening the Foundations of the Third Sector, investigadores, organizações da sociedade civil, fundações e decisores públicos discutiram o futuro da inovação social.
Uma ideia atravessou muitas das sessões: não conseguiremos resolver problemas sociais complexos enquanto continuarmos a produzir conhecimento distante das pessoas que os vivem.
Foi impossível não pensar no percurso do Lisboa Invisível.
Principais insights:
1.Não recolher dados. Construir conhecimento.
Recolher informação é relativamente simples.
Construir conhecimento exige confiança.
Exige tempo.
Exige regressar e validar.
Uma participante no congresso resumiu um problema que conhecemos bem:
“Vocês vêm, recolhem informação… e depois nunca mais voltam.”
A frase não era uma crítica à investigação.
Era uma crítica à forma como se produz conhecimento.
Em tratar pessoas em situação de vulnerabilidade como fontes de informação, quando poderiam ser produtoras de conhecimento.
2.A inovação social mede-se pelo impacto que se deixa.
Como tornar o projeto de pesquisa sustentável ou como tornar o impacto sustentável?
O Lisboa Invisível nunca pretendeu ser apenas um espaço digital.
Pretende testar uma forma diferente de produzir conhecimento.
Se esta metodologia vier a influenciar a forma como instituições públicas recolhem dados, desenham políticas ou envolvem comunidades, então o verdadeiro impacto terá começado precisamente mesmo quando os 18 meses de projeto terminar.
3.A academia não pode trabalhar sozinha.
Uma das mensagens mais fortes da conferência foi a necessidade de aproximar universidades e organizações da sociedade civil.
Para nós esta colaboração nunca foi acessória.
É estrutural.
As organizações parceiras ajudam-nos a chegar às pessoas.
As próprias pessoas ajudam-nos a compreender aquilo que os indicadores não mostram.
E a investigação procura devolver esse conhecimento em forma de recomendações e ferramentas úteis para quem intervém diariamente no terreno.
Não existe produção de conhecimento relevante sem relações de confiança.
4.Antes de mudar políticas, é preciso mudar narrativas.
Foi por isso que, durante o Showcase da conferência, escolhemos apresentar uma ferramenta aparentemente simples: o nosso quiz sobre mitos e factos, para mexer com as narrativas estigmatizadas que nem imaginamos ter.
Antes de transformar políticas públicas, precisamos igualmente transformar aquilo que a sociedade acredita saber.
Porque a invisibilidade nasce também das narrativas que repetimos sem questionar.
Saímos da ISTR com a sensação de que o Lisboa Invisível já participa numa conversa muito maior.
Sobre o futuro das políticas públicas.
Mas, acima de tudo, já participa da conversa sobre quem tem o direito de produzir conhecimento.
Talvez seja essa a principal contribuição: garantir que a experiência das próprias pessoas conste na construção das soluções.

Sobre a ISTR
A International Society for Third Sector Research (ISTR) é uma associação internacional que reúne investigadores, universidades e organizações da sociedade civil dedicadas ao estudo do terceiro setor, da filantropia, da economia social e da inovação social. A sua conferência bienal é um dos principais encontros mundiais para a partilha de investigação e de práticas neste domínio.
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