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Quando a habitação se torna invisível

Autoria

Lisboa Invisível

Data

06 JUL 2026

Quando a habitação se torna invisível

O que o ENHR 2026 nos ensina a partir de Lisboa

Participamos do congresso anual da European Network for Housing Research (ENHR) e foi perceptível o consenso de para onde caminha a investigação internacional sobre habitação. Em 2026, sob o tema Homeownership, Prosperity and Inequality in the 21st Century, centenas de investigadores reuniram-se para discutir propriedade, mercado, políticas públicas e novas formas de governança urbana.

Este mosaico de temas, observados em conjunto, revela uma mudança profunda: a crise habitacional finalmente é mais do que um problema de acesso à propriedade ou de aumento dos preços. A casa finalmente está sendo discutida como condição para o cuidado, a saúde, o trabalho, a educação, a mobilidade e a participação na vida urbana.

 

O Lisboa Invisível oferece o potencial de uma lente interpretativa: olhar para o que escapa às estatísticas e às categorias convencionais.
A nossa investigação permite compreender uma dimensão da crise habitacional que permanece invisível.

Durante décadas, a investigação concentrou-se na oposição entre proprietários e inquilinos. Ao longo dos debates na ENHR, essa dicotomia já não parecia suficiente. Multiplicam-se estudos sobre financeirização, cooperativas, Community Land Trusts, formas híbridas de posse e processos de desmercantilização da habitação. A questão central deixou de ser apenas quem possui um imóvel e passa a ser quem consegue permanecer sob um teto.


Partilhamos uma TEDx Talk, de Leilani Farha, sobre essa passagem da casa como direito para a casa como ativo financeiro:

População que não cabe nas categorias tradicionais

Entre essas posições emerge uma vasta zona cinzenta composta por

  • moradores de quartos sobrelotados
  • pessoas sem contrato formal
  • famílias instaladas em anexos
  • apartamentos divididos
  • ocupações silenciosas
  • formas precárias de permanência

São habitantes que dificilmente aparecem nas estatísticas oficiais, mas cuja presença estrutura o funcionamento quotidiano da cidade.

Essa invisibilidade residencial é o ponto de maior convergência entre Lisboa e as agendas apresentadas no congresso. Diversos trabalhos abordam hidden homelessness, sobrelotação, deslocamentos invisíveis, permanência forçada, trabalhadores alojados em condições precárias e dependência habitacional. Em comum, esses estudos mostram que a exclusão residencial se manifesta por formas de habitação marcadas pela insegurança, pela instabilidade e pela invisibilidade administrativa.

Cidades que escondem pobreza 

Quartos alugados informalmente, apartamentos subdivididos e contratos inexistentes formam um sistema paralelo de provisão habitacional. Essas soluções precárias respondem a uma procura que o mercado formal e as políticas públicas atuais não conseguem absorver.

Outra mudança importante observada no ENHR é a crescente compreensão da habitação como infraestrutura de cuidado. A casa deixa de ser analisada exclusivamente como mercadoria para ser entendida como espaço de apoio mútuo, envelhecimento, solidariedade e construção comunitária. Multiplicam-se estudos sobre cohousing, habitação colaborativa e redes locais de governança.

Lisboa, o caso português 

Há convergência com o que acontece nas periferias urbanas e em muitas situações de informalidade residencial, em que também existem formas coletivas de cuidado. Também são práticas que não resultam de projetos arquitetónicos inovadores nem de políticas deliberadas. Nascem da necessidade. Partilha-se a cozinha, divide-se o quarto, organiza-se o cuidado das crianças e dos idosos porque não existem alternativas. O contraste entre colaboração por escolha e colaboração por sobrevivência ajuda a compreender os limites de uma parte da literatura internacional, frequentemente centrada em experiências voluntárias de habitação colaborativa.

No congresso também se evidenciou o regresso do Estado ao centro das discussões. Poucos investigadores defenderam que o mercado, sozinho, seja capaz de resolver a crise habitacional. A maioria dos trabalhos discute capacidade institucional, financiamento público e planeamento urbano. Em vez de perguntar se o Estado deve intervir, pergunta-se como pode fazê-lo de forma eficaz.

O Lisboa Invisível acrescenta uma perspetiva decisiva a esse debate, apontando onde o Estado não chega. 

Segregação no centro da cidade

A dimensão espacial da desigualdade constitui outro eixo transversal do ENHR. Estudos provenientes de diferentes cidades europeias mostram como desigualdades económicas se transformam em desigualdades territoriais. Segregação, periferização e diferenciação entre bairros continuam a ocupar um lugar central na investigação.

Nós sugerimos que nem toda a segregação está sendo cartografável. Muitas das formas mais intensas de exclusão habitacional coexistem dentro do mesmo edifício, da mesma rua ou do mesmo bairro. 

A cidade invisível não se organiza apenas entre centro e periferia; instala-se também no interior dos espaços aparentemente integrados, tornando a desigualdade menos visível, mas não menos profunda.

Pra quê metodologias académicas e científicas?

Cresce o recurso à etnografia, à observação participante, às caminhadas urbanas e às metodologias situadas como forma de captar experiências que escapam aos grandes levantamentos estatísticos. A valorização dessas abordagens reflete o reconhecimento de que os censos e as bases de dados tradicionais já não conseguem descrever integralmente a complexidade.

O Lisboa Invisível produz precisamente o tipo de conhecimento qualitativo que as lacunas investigativas têm procurado resolver: uma compreensão situada das experiências quotidianas de quem permanece invisível para os instrumentos convencionais de medição.

A principal conclusão que emerge do ENHR de que a crise habitacional deixou de ser abordada apenas como uma crise do mercado imobiliário é um grande avanço. Afinal é mesmo uma crise do quotidiano. A habitação condiciona a saúde, o trabalho, a educação, a mobilidade, as relações familiares e a própria possibilidade de construir uma vida urbana estável.

Por fim, entendemos que o nosso caso permite dar um passo adicional ao abordar aquilo que escapa às categorias estatísticas, às políticas públicas e, muitas vezes, à própria teoria.

Se o ENHR 2026 traça um retrato das principais agendas internacionais para a habitação, o Lisboa Invisível demonstra que é possível antecipar e experimentar, na prática, caminhos que podem contribuir para responder à crise da habitação.

ENHR 2026

A investigadora Ana Luísa Melo esteve representando o Lisboa Invisível durante o ENHR 2026, em Oslo, na Noruega.
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Explora mais

Assista ao documentário PUSH (2019), dirigido por Fredrik Gertten e protagonizado por Leilani Farha. O filme mostra como a financeirização transformou cidades como Lisboa, Barcelona, Londres e Toronto. 

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