Há coisas que só se sabem por dentro.
E há coisas que, quando são contadas por quem as vive, nos obrigam a escutar de outra maneira.
No Lisboa Invisível tentamos que essas coisas não fiquem apenas faladas sobre, mas também, e sobretudo, escritas por.
Uma das nossas colaboradoras de investigação, que se encontra em situação de sem-abrigo, escreveu o texto abaixo.
Publicamos tal como nos foi entregue, com a sua autorização, sem a identificar, e do princípio ao fim.
Publicamos porque alguém que vive essa realidade decidiu escrever sobre ela.
Uma de muitas experiências, realidades e percepções que existem.
A miséria, a solidão e as circunstâncias da vida
A miséria, a solidão, as circunstâncias da vida humana que nos trazem a esta situação, os problemas familiares, conjugais, tudo o que o sofrimento traz, a um desespero que nos leva aos piores vícios, onde se escondem, num profundo silêncio, todas as marcas deixadas pela vida fora.
As drogas, o álcool, a prostituição, o roubar para sobreviver, até ao matar. Onde, por vezes, são obrigados a fugir à justiça para não irem parar às cadeias. Outros que já por lá passaram e não querem para lá voltar.
Tudo isto é uma sensação, emoção, tortura e desequilíbrio emocional traumatizante, neste mundo sem fim.
O que é, afinal, “investigação colaborativa”?
A expressão pode parecer técnica, mas é simples: quem vive uma experiência participa também em contá-la e em produzir conhecimento sobre ela.
Isto é mais raro do que parece.
Há poucas semanas, o Metrópoles noticiou o caso de um designer paranaense que decidiu passar um tempo a viver como pessoa em situação de rua, em São Paulo, como “experimento pessoal”, documentando a experiência para, no fim, escrever um livro. É uma forma de investigação que parte de alguém de fora, que entra numa realidade que não conhecia por dentro para depois a narrar a partir de si.
No Lisboa Invisível, também investigamos de forma diferente.
Não somos nós a entrar na experiência de ninguém. É a experiência de quem já a vive que entra na investigação.
Com espaço para decidir o que é dito e como.
E isto muda uma coisa fundamental: quem produz conhecimento sobre a exclusão habitacional deixa de ser apenas quem observa e investiga de fora. Passa a ser também quem atravessa essa realidade por dentro.
Como isto acontece, na prática
A palavra escrita, como o texto de hoje, é apenas uma das formas. Ao longo dos cinco anos do projeto, fomos construindo diferentes caminhos para que a experiência vivida se possa transformar em conhecimento partilhado:
Photovoice
As pessoas participantes fotografam aquilo que escolhem mostrar da sua própria vida, não aquilo que nós acharíamos importante fotografar.
Cada imagem é acompanhada por uma narrativa própria: o que é, o que significa, porque foi escolhida.
É investigação feita com uma câmara em vez de um questionário
Cartas
Textos mais pessoais, escritos em diferentes momentos e a partir de diferentes relações: algumas dirigidas a alguém em concreto, outras escritas simplesmente para serem lidas.
Se o texto de hoje é quase um manifesto, as cartas tendem a abrir espaço para experiências mais íntimas.
Do quotidiano
Vídeos e reels que mostram fragmentos do dia a dia.
Não apenas o “momento de crise” que tantas vezes aparece nas notícias sobre sem-abrigo, mas o resto do tempo: o que se faz, onde se está, como se vive entre um episódio e outro.
Contextos
Reportagens e investigação que ajudam a situar estas histórias dentro de um fenómeno maior, e, por vezes, a pensar sobre diferentes formas de investigar o mesmo tema.
Foi nesse sentido que trouxemos também o caso do designer paranaense em São Paulo: não como equivalente ao nosso trabalho, mas como ponto de partida para pensar sobre quem observa, quem participa e quem tem o poder de contar uma experiência.
Este texto é uma peça dentro de um processo maior.
Se te tocou, e acha que vale a pena continuar a acompanhar, não esquece de compartilhar com outras pessoas.